Quinta-feira, Janeiro 28, 2010

O verão...

Chuva pela manhã com pancadas de sol, tempestade de chuva de tarde sem sol, noite sem sol com pancadas de chuva.

Quinta-feira, Dezembro 24, 2009

Apocalípticos e oportunistas

É com certa reserva que eu assisto a essa onda de euforia em torno do livro digital. Não consigo imaginar a morte dos tipos impressos em papel, por mais que os alarmistas (e oportunistas) de plantão o sentenciem dia após dia.

As justificativas para tal são as mais absurdas. “O livro digital diminuirá radicalmente a demanda por papel, contribuindo decisivamente para a preservação ambiental”. Ah é? Mas os aparelhos leitores de livros digitais são feitos de que, vento? Não. Haverá um deslocamento de demanda por matéria-prima, só.

Não é de hoje que a humanidade cultiva esse hábito apocalíptico. Sempre que desponta uma nova tecnologia, algum elemento tradicional é colocado no limbo. O próprio livro, que criou o estudante solitário, quando apareceu foi apontado como o responsável pela morte das histórias faladas. O jornal, por sua vez, veio para decapitar os livros e assim por diante. Nada disso aconteceu. O livro, o jornal e as histórias faladas continuam aí, independente da parafernália tecnológica que brota feito cogumelo depois da chuva.

Sinceramente, não acredito na morte do livro em papel. O que seria da humanidade sem ele? É um ícone que já está entre nós há alguns séculos. Ler naquela insípida tela digital não se compara ao prazer de abrir um livro antigo e sentir aquele cheiro de sabedoria empoeirada que salta das folhas amareladas pelo tempo. Tem certas coisas que não mudam e não morrem e penso que o livro em papel é uma delas.

Terça-feira, Dezembro 22, 2009

Woods e os Trobriandeses

Gosto de acompanhar certos escândalos menos por interesse pessoal e mais por vê-los como atestados irrefutáveis da miséria espiritual que assola a nossa chamada sociedade pós-moderna. A bola da vez é o golfista norte-amerciano, Tiger Woods. Naturalmente, a imprensa tabloidesca recebeu o caso com muito gosto, pois sabe que escândalos como esse rendem uma boa monta de dinheiro, dado o apetite mórbido do público por esse tipo de assunto.

Outrora queridinho da América, Woods foi do céu ao inferno por ter cometido adultério. Perdeu patrocinadores, prestígio, dinheiro e está a um fio de perder a custódia dos filhos e a esposa, que pediu o divórcio na justiça. De herói nacional, Woods se transformou num criminoso sexual. O golfista, em defesa, declarou ser compulsivo por sexo e disse que iniciará um tratamento psicológico para se curar, como se ele de fato estivesse acometido de algum tipo de doença.

Veja que a questão aqui gira em torno do fator sexual. Woods “traiu” a esposa porque queria ter relações sexuais com outras mulheres. Do ponto de vista biológico não há nada de errado com isso. O ser humano é um animal – embora muitos se esqueçam disso – e, como todo animal, age no sentido de satisfazer os seus desejos, entre eles o sexo. Se a parceira é fulana, ciclana ou beltrana não importa muito, o que interessa é a satisfação do desejo, o requisito básico da vida de qualquer indivíduo. Por outro lado, do ponto de vista moral*, há aí um tremendo problema. Na nossa cultura monogâmica, exige-se do amor uma fidelidade tal que o sexo com outro parceiro que não o oficial acarreta um sentimento de profunda traição, não só conjugal, mas também de confiança. E é aí que está o impasse: o que é socialmente aceito e exigido pela nossa cultura está em desacordo com a natureza humana. Pobre de nós, pois Freud já observou com muita propriedade que a repressão sobre os instintos é um fator fundamental para a formação de neuroses.

Em outras culturas examinadas por antropólogos etnógrafos, constatou-se um entendimento totalmente diferente ao que nós damos ao sexo. O antropólogo polonês Bronisław Kaspar Malinowski, em seus registros sobre os Trobriandeses, povos nativos da Nova Guiné, observou que eles não só tem uma vida sexual bastante ativa e liberal, mas que também não concebem o conceito de paternalidade. O que dizer então de castidade pré-nupcial e fidelidade conjugal? São coisas desconhecidas. Mais ainda, para eles as crianças nascem por obra de forças superiores independentemente da relação sexual. Talvez Woods devesse se mudar e ir morar com os Trobriandeses, pois lá certamente seria mais feliz.


*Não sem tempo, é preciso fazer uma observação: a palavra “moral”, a rigor, quer dizer quase o mesmo que “ética”. A diferença é que a primeira tem raiz no latim e a segunda no grego. A distinção entre ética e moral se deu a partir do Iluminismo por conta de um fator ideológico.

Segunda-feira, Dezembro 14, 2009

Resenha de um filme não visto

Com um pouco de atraso, lanço aqui a primeira (mas com certeza não a última) resenha de um filme não visto. E o filme da vez é a fábula Lula, o filho do Brasil. Não é nem preciso assistir ao filme para saber do que se trata. Basta observar o título, quem está por trás da produção e a época em que foi lançado.

Como não vi o filme (e nem quero), farei suposições levianas baseadas no empirismo acerca de um mundo cada vez mais previsível.

O diretor, Fábio Barreto, não nega as origens e segue à risca a tradição familiar de levar às telas melodramas açucarados que abusam de truquetes manjados para "emocionar" as platéias mais desavisadas.

O título, já dá uma idéia do que está por vir. Aposto que a vontade inicial dos marqueteiros era usar a palavra "herói" no lugar de "filho" no título, mas decidiram voltar atrás para não deixar muito explícito o comprometimento ideológico com a figura retratada no longa.

Agora, a época é o que mais salta aos olhos. Lançar um filme desses em pleno início de campanha eleitoral e ainda ter a desfaçatez de negar que haja interesse eleitoreiro nessa história toda, digo fábula, é de uma cara-de-pau que só mesmo os mais arraizados filhos do Brasil são capazes.

Sexta-feira, Setembro 18, 2009

O não-dito

Lula disse "ser ótimo não ter trogloditas de direita na próxima disputa eleitoral", numa possível referência àqueles que "baixam o nível" da contenda. Lula, porém, não disse que o episódio de maior "baixeza" foi protagonizado justamente pelo seu partido, o PT, na última campanha eleitoral, a mucipal. Afinal, quem não se lembra dos ataques homofóbicos da turma de Marta Suplicy dirigidos contra o adversário Gilberto Kassab? Pode não ser um ato de "direita", mas não deixa de ser um ato "troglodita".

Sarney disse que a mídia* é "inimiga do povo", incomodado com os sucessivos "ataques [midiáticos] nazistas" à sua pessoa ilibada, pia e biográfica. Sarney, porém, não disse que o conflito entre mídia e governo se dá em países:
1)Que apresentam regimes ditatoriais e/ou populistas.
2)Cujos representantes da classe política povoam as páginas de jornal não por seus méritos e virtudes, mas pela enxurrada de escândalos de improbidade admnistrativa que protagonizam.

Sarney cumpre o seu papel, que é assaltar o patrimônio público e fazer do Senado o quintal de sua casa.
A imprensa cumpre o seu papel, que é denunciar.


*A palavra mídia assumiu um conceito outro que o original. Mídia significa todo o conjunto de meios de comunicação. É mídia a notícia que denuncia as improbidades dos Sarney, assim como também é mídia a propaganda de automóvel na poltrona do avião. Assim, a colocação de Sarney é, no mínimo, infeliz.

Terça-feira, Setembro 08, 2009

Rota 66, um resumo


Eis aí um livro muito bom. Além de bem escrito, trata-se de um excelente trabalho de apuração jornalística. Retrato das crueldades de um Brasil que não se mostra à luz do dia.


A Polícia Militar (PM) foi criada em 1970 para combater os movimentos guerrilheiros. Mesmo depois de vencida a guerrilha, quatro anos depois, a PM continuou existindo e passou a fazer o patrulhamento das cidades. Em São Paulo existe uma divisão da PM conhecida como Rota (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar). Em tese, a Rota é um batalhão de elite encarregado de missões especiais e arriscadas, mas, na prática, a verdade é outra. A Rota não passa de um sanguinário batalhão de extermínio de gente pobre.

Depois de dois anos de pesquisas, Caco Barcellos criou um Banco de Dados para estabelecer o perfil da vítima padrão da Rota. Sua pesquisa se baseou principalmente no Diário Oficial do IML (Instituto Médico Legal)e nos registros de vítimas de crimes cometidos pela Polícia Militar no Jornal Notícias Populares. Depois de analisar 3.523 casos de assassinatos praticados pela PM, ele chegou ao seguinte perfil: jovem, pobre, pardo, morador da periferia, em torno dos 20 anos, trabalhador de baixa remuneração.

O caso Rota 66 é o único que foge desse padrão. Nesse caso, três jovens brancos e moradores do Jardins, um dos bairros mais abastados da capital paulista, foram perseguidos e executados pelos PM’s. Os policiais desconfiaram que o carro que eles dirigiam era roubado – como se isso justificasse a execução – e os perseguiram até encurralá-los na rua Buenos Aires, onde os executaram com rajadas de metralhadora. O acontecimento inusitado chamou atenção da letárgica e parcial imprensa brasileira, que fabricou mais de 200 notícias sobre o ocorrido.

A atuação da imprensa é algo a ser ressaltado quando se trata de crimes cometidos pela polícia. Ela não demonstra muito interesse pelo assassinato de pessoas pobres. Quando muito, se limita a reproduzir a versão oficial, isto é, a versão parcial contada pelos policiais. Em alguns casos, chegam até mesmo a distorcer os fatos, acusando de bandido perigoso pessoas que nunca se envolveram em crimes e não tiveram uma sequer passagem pela polícia, causando dor e humilhação aos parentes das vítimas. Os programas policiais de rádio da época (meados dos anos 70 e começo dos anos 80) eram especialistas nesse tipo de façanha. Os policiais, por sua vez, contam sempre a mesma história: a vítima abriu fogo contra os patrulheiros, que, sem opção, viram-se obrigados a revidar e atingiram fatalmente o infrator, logo socorrido no pronto-socorro mais próximo. Esse suposto “gesto humanitário” de socorrer a vítima, além de violar o local do crime, que deveria ser examinado pela perícia criminalística, pode ser facilmente contestado, pois a maioria das vítimas já chega morta ao pronto-socorro com tiros em regiões vitais, principalmente no peito e na cabeça, o que demonstra a clara intenção de execução. Alguns tiros apresentam “tatuagens”, que são órbitas de queimaduras que se formam em torno do orifício aberto no corpo da vítima pelo projétil. As tatuagens são indícios de que o tiro foi disparado à queima-roupa, o que descarta a hipótese de tiroteio. Por isso a perícia criminalística é tão importante, para desmentir a versão fantasiosa dos PM’s. Há casos em que as vítimas foram examinadas e não se constatou a presença de pólvora em seus dedos. O resquício de pólvora nos dedos é uma prova de que houve disparo de arma de fogo.

Cabe à Polícia Militar somente coibir o crime, prender o suspeito e levá-lo à julgamento, mas os homens da Rota parecem acreditar que são justiceiros envolvidos numa guerra suja cuja missão é eliminar o maior número de gente possível. Se forem criminosos, melhor ainda. Aliás, essa é uma prática comum na Rota: primeiro atira, depois suspeita. Os homens da Rota invadem domicílios sem mandado de justiça, executam pessoas inocentes sem antecedentes criminais suspeitas de crimes que não foram investigados e muito menos confirmados. Algumas operações são tão exageradas que trazem mais prejuízos do que benefícios à sociedade. Numa delas, a Rota mobilizou 100 homens na perseguição de um carro roubado. O saldo final foi um prejuízo quatro vezes maior que o valor do carro, contando o efetivo militar e os gastos com a burocracia judicial que conduziu 11 anos de investigações e no fim não ressarciu o proprietário do veículo.

Desde que foi criada, em 1970, até junho de 1992, a Polícia Militar havia matado algo em torno de 7500 a 8 mil pessoas. Essa cifra supera o número de mortes de qualquer revolta interna ou conflito externo no qual o Brasil esteve envolvido, com exceção da Guerra do Paraguai. Nesse ponto surge a inevitável pergunta: e porque esses matadores não são punidos? Porque eles não apenas são incentivados pelo Comando a matar, como também recebem prêmios, bonificações, prestígio e promoções na carreira de acordo com o saldo de vítimas. A justiça é conivente, os IPM’s (Inquéritos Policiais Militares) são feitos pelos próprios policiais militares, que acobertam uns aos outros e o hábito comum de saquear o local do crime dificulta as investigações da Polícia Civil, fator que contribui para a absolvição dos assassinos por falta de provas. A visão de segurança pública do Comando Militar é absolutamente deturpada. A crença é a de que a função da polícia é defender os bens de uma minoria rica contra o saque de uma maioria pobre.

Quinta-feira, Julho 16, 2009

Compêndio fecal

Certa vez eu disse aqui que o auto-declarado messias da publicidade brasileira, a prepotência em pessoa, o sr. washington olivetto (sim, em minúsculas mesmo), não passa de um grande “senhor da merda total”. Não me arrependo. Ele é digno de tal alcunha.

Já tem mais de um mês que iniciei um "livro" dele e não consigo concluí-lo, tamanha a dificuldade desse obstáculo quase intransponível. E olhe, caro fécula, que aquilo que preenche essas páginas mal-diagramadas não é das matérias mais complicadas do universo; futebol, Corinthians, torcida e bola na rede. É um livreco sobre o meu tão querido Corinthians, que, pela sua grandeza, tenho certeza: merecia estar em melhores mãos.

O livro é um campo pedregoso que provoca uma série de tropeços, uns mais leves, simples arranhões; outros, tombos feios, de fraturar a clavícula e coisa assim. Um desses tombos eu tomei quando li que Pelé tinha jogado no Corinthians e foi “dado de presente ao Santos”, pois o campeonato já estava chato demais de tanto o Corinthians ganhar. Mentira deslavada? Burrice? Preguiça de apurar os fatos? Não sei, mas na falta de uma opção eu fico com as três. Detalhe que o livro é “co-escrito” em parceria com o jornalista Nirlando Beirão, que teve a tarefa de consertar as cagadas do pombo velho. Assim, ao final de cada capítulo, encontramos um compêndio de erratas que corrigem – ou desmentem – essas e outras patavinas.

Fico me perguntando quem foi o sádico que deu o aval para esse genocídio literário.

Outro dia mesmo, à toa num desses sebos por aí, topei com um livro de capa preta imponente onde se lia em branco seco: “os piores textos de washington olivetto”. Na hora me veio à mente a inevitável pergunta: poxa, até o olivetto já lançou uma antologia?